A evolução da filosofia, do princípio ao holomovimento
Um mapa das grandes correntes, uma trilha de estudo concreta, fontes gratuitas e legais, e o fio que liga tudo isso ao que você já constrói com Bohm.
A história da filosofia é, no fundo, uma única conversa de 2500 anos. Cada época responde à anterior, e a tensão entre permanência e processo que abre o jogo é a mesma que reaparece em Bohm.
Filosofia Antiga
Tudo começa com os pré-socráticos perguntando do que o mundo é feito: água em Tales, o indefinido em Anaximandro, número em Pitágoras. Surge aí a tensão metafísica que ainda é a sua: Heráclito vê a realidade como processo e fluxo (panta rhei), Parmênides vê a mudança como ilusão e só o Ser como real. Sócrates desloca o foco do cosmos para o humano e a ética. Platão constrói o idealismo das Formas; Aristóteles responde com substância, hilemorfismo e a fundação da lógica. No crepúsculo da Antiguidade vêm o estoicismo, o epicurismo, o ceticismo e o neoplatonismo de Plotino, com o Uno e a emanação, ancestral direto das metafísicas holísticas.
Filosofia Medieval
O grande projeto é conciliar razão e fé. Agostinho funde Platão ao cristianismo e inaugura a interioridade do sujeito. A filosofia islâmica e judaica (Avicena, Averróis, Maimônides) preserva e desenvolve Aristóteles, devolvendo-o ao Ocidente. Tomás de Aquino realiza a síntese aristotélico-cristã. Em paralelo corre a mística de Mestre Eckhart, que antecipa intuições de unidade entre o indivíduo e o todo.
Filosofia Moderna
A revolução científica reorganiza tudo. De um lado o racionalismo: Descartes (o cogito e o dualismo entre mente e corpo), Espinosa (monismo de substância única, Deus ou Natureza) e Leibniz (mônadas que refletem o universo inteiro, intuição quase holográfica). De outro o empirismo: Locke, Berkeley e Hume, cuja crítica à causalidade abala as fundações. Kant faz a síntese crítica: o conhecimento depende das estruturas do próprio sujeito, e separamos fenômeno de númeno.
O Século XIX
O idealismo alemão (Fichte, Schelling, Hegel) leva a razão ao limite com a dialética e o Espírito que se desdobra na história. Vêm as grandes reações: Schopenhauer (a Vontade, influenciado pelo Vedanta e pelo budismo), Kierkegaard, Marx (materialismo e práxis) e Nietzsche (genealogia, vontade de potência, perspectivismo). Nos Estados Unidos nasce o pragmatismo de Peirce, James e Dewey.
Filosofia Contemporânea
Quatro vertentes se ramificam. A fenomenologia (Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty e a percepção encarnada) e o existencialismo (Sartre, Beauvoir, Camus). A filosofia analítica (Frege, Russell, os dois Wittgensteins, o Círculo de Viena). A filosofia do processo (Whitehead e Bergson), que retoma Heráclito: o real é evento e devir, não substância estática. E o estruturalismo e pós-estruturalismo (Foucault, Derrida, Deleuze). Cruzando tudo, a filosofia da mente e a ciência cognitiva: o problema mente e corpo, o problema difícil da consciência (Chalmers), o enativismo (Varela) e a mente estendida (Clark e Chalmers).
Tradições Não-Ocidentais
No mesmo período axial dos gregos, a Índia desenvolve o Vedanta (o Advaita não-dualista de Shankara) e a filosofia budista (a Madhyamaka de Nagarjuna, com a Sunyata, e a Yogacara da só-mente), e a China produz o taoismo (Laozi, Zhuangzi) e o confucionismo. São justamente as tradições de não-dualidade e de processo que mais ressoam com a totalidade indivisa de Bohm.
A trilha é cronológica de propósito: você entende a evolução melhor quando lê cada autor como resposta ao anterior. Comece pelo mapa, depois desça às fontes, e por fim suba ao ramo que leva ao seu projeto.
Pegue o mapa
Leia uma boa história geral primeiro, para ter o panorama e não se perder. Em acesso aberto, o melhor ponto de partida é o Introduction to Philosophy da Open Textbook Library, que inclui tradições não-ocidentais. Para o panorama em áudio, a série History of Philosophy Without Any Gaps, de Peter Adamson, é gratuita e cobre Índia, China e o mundo islâmico. Os links estão na aba Fontes gratuitas.
Fontes primárias, em ordem
Leia os originais na sequência cronológica, sempre com um comentário ao lado. Comece pequeno: diálogos de Platão (Apologia, Fédon, trechos da República), a Ética a Nicômaco de Aristóteles, um estoico acessível (Manual de Epicteto ou Meditações de Marco Aurélio), trechos das Confissões de Agostinho, as Meditações de Descartes, a Investigação de Hume, Kant pelos Prolegômenos antes da Crítica, e Nietzsche pela Genealogia da Moral. A regra de ouro: persiga as perguntas, não os nomes.
O ramo que leva ao seu projeto
Aqui a história converge. Siga três fios entrelaçados. Processo e totalidade: Bergson (A Evolução Criadora), Whitehead (comece por A Ciência e o Mundo Moderno antes de Processo e Realidade) e Deleuze. Filosofia da mente: de Descartes ao ensaio de Nagel "Como é ser um morcego?", depois Chalmers (A Mente Consciente), o enativismo de Varela, Thompson e Rosch (The Embodied Mind) e a mente estendida de Clark e Chalmers. Não-dualidade oriental: Shankara, Nagarjuna na tradução de Jay Garfield, e o Zhuangzi.
Feche o círculo em Bohm
Depois desse percurso, A Totalidade e a Ordem Implicada vai parecer a culminação natural de uma conversa de 2500 anos, e não uma curiosidade isolada. Você terá os pré-requisitos para ler Bohm como filósofo, e não apenas como físico.
Tudo aqui é de domínio público ou de acesso aberto. Nada de cópias piratas.
Portal do governo brasileiro com mais de 400 obras de filosofia gratuitas para download, em português e inglês. Ideal para textos clássicos em tradução.
www.dominiopublico.gov.brClássicos em domínio público (Aristóteles, Descartes, Hume, Kant, Nietzsche) para baixar ou ler no navegador. Inclui "Os Problemas da Filosofia" de Russell, uma ótima introdução já liberada.
openculture.com/free-philosophy-ebooksO melhor manual introdutório de acesso aberto (licença Creative Commons), com tratamento aprofundado de tradições não-ocidentais. O ponto de partida da Etapa 0.
open.umn.edu/opentextbooks/textbooks/1270Vários manuais abertos, incluindo Modern Philosophy, The Originals: Classic Readings in Western Philosophy e Philosophy of Mind (Rebus, CC BY).
open.umn.edu/opentextbooks/subjects/philosophyMais de 70 mil obras em domínio público, com os textos primários de Platão, Kant, Hume e Nietzsche para a Etapa 1, em vários formatos.
www.gutenberg.orgA melhor referência acadêmica gratuita, revisada por pares. Use como dicionário de apoio sempre que travar em um conceito ou autor.
plato.stanford.eduA série gratuita de Peter Adamson para o panorama em áudio, episódio a episódio, cobrindo também as tradições da Índia, da China e do mundo islâmico.
historyofphilosophy.netHegel é o ponto de entrada mais difícil da filosofia: ele escreve em resposta a Kant e pressupõe quase toda a tradição anterior. Dois cuidados mudam tudo: tenha uma noção de Kant antes ou em paralelo, e nunca leia Hegel sem um guia ao lado. Não comece pela Fenomenologia a frio.
A dialética, o autodesdobramento do Conceito e do Espírito, é um parente estrutural do desdobrar implicado e explicado de Bohm: o todo está presente em cada etapa do movimento.
Por onde começar
A Razão na História
A Introdução à Filosofia da História é a entrada mais legível, e é onde o Espírito se desdobrando no tempo aparece com mais clareza. Comece por aqui.
Fenomenologia do Espírito
Entre pelo Prefácio e pela Introdução, siga pela dialética do Senhor e do Escravo e avance devagar, sempre com um comentário ao lado. É o coração da obra.
Enciclopédia (a Lógica Menor)
O núcleo sistemático em forma mais digerível que a Ciência da Lógica. Bom para fixar o método antes dos grandes blocos.
Os grandes blocos
Ciência da Lógica, Filosofia do Direito e as Preleções (Estética, História da Filosofia, Religião), quando o terreno já estiver firme.
Fontes gratuitas (domínio público)
Hegel morreu em 1831, então o original alemão e as traduções antigas em inglês estão liberados. As fontes abaixo são legais e gratuitas.
O melhor acervo único: Fenomenologia (trad. Baillie), Enciclopédia e Lógica (Wallace), Filosofia do Direito (Dyde), Preleções sobre a Filosofia da História (Sibree) e as Introduções principais. Em inglês.
marxists.org/reference/archive/hegelReúne em um só lugar todas as fontes livres de Hegel, inclusive os textos no alemão original e os comentadores do século XIX.
hegel.net/en/etexts.htmScan completo da tradução clássica de Baillie da Fenomenologia, para baixar e ler offline.
archive.org/details/cu31924097557171A Phänomenologie des Geistes e a Lógica no alemão original, em domínio público, caso queira ir à fonte.
www.gutenberg.orgA melhor introdução secundária gratuita. Leia em paralelo, como guia, sempre que travar em um conceito.
plato.stanford.edu/entries/hegelProtegidas (comprar ou pegar emprestado)
Por que essa trilha inteira termina em Bohm? Porque a sua linhagem filosófica tem um fio condutor claro, e ele atravessa toda a história acima.
O fio parte da tensão entre Heráclito (o fluxo) e Parmênides (o Ser), passa pelo Uno de Plotino, pela substância única de Espinosa e pelas mônadas de Leibniz que espelham o todo, atravessa a filosofia do processo de Bergson e Whitehead, e encontra na física de Bohm e no Vedanta uma reformulação contemporânea da mesma intuição de fundo: a realidade é um todo indiviso em movimento, o holomovimento.
A realidade é um todo indiviso em movimento, e o que chamamos de partes são dobras e desdobras de uma mesma ordem implicada.
Vale notar que o próprio Talbot, no material deste projeto, traça esse paralelo de forma explícita. Ele aproxima a ordem implicada e explicada de Bohm de tradições místicas como o sufismo, em que o reino interior envolve e contém aquilo que à primeira vista parecia exterior, e da ideia de que a consciência habita os níveis mais sutis dessa ordem, além do espaço e do tempo. Ler a filosofia desde o princípio é, para o seu trabalho, reconstruir a genealogia dessa única intuição.